Parede cinza. Aconchegante. Vinis colados na parede, estante
de livros organizada por gênero literário. Os de cinema ganharam uma estante
exclusiva, organizada por ordem alfabética. Ela fumava no sofá vermelho com os
pés na mesa de madeira. Fumava e ouvia uma música que não existe. Os cigarros
eram fortes demais, mas ela se esforçava para não tossir. Seu vestido preto
representaria viuvez se não caísse tão sensualmente em suas pernas brancas,
seus pés, unhas com esmalte vermelho, estão trêmulos. Trêmulos como suas mãos,
de unhas roídas, que sustentam quase que involuntariamente um cigarro. A fumaça
tóxica não parece incomodar o gato que, em sua desproporcionalidade corporal,
dorme ao seu lado e recebe seus carinhos. Ele entra, com tênis sujo e uma calça
jeans que ela odiava. Os olhos dele se arregalaram, os dela se molham. Porque ele
fica tão bonito em duas situações:
. quando sorri
. quando arregala os olhos
Ele vira as costas e vai embora. Ela
chora e abraça forte o gato, que agora sim se incomoda e vai dormir na janela. A
janela que tem violetas e margaridas em vasos que ela mesma decorou com tinta
acrílica. A cortina tem laços azuis que torna tudo fofo. E isso releva como ela
é, doce e delicada. Mas suficientemente louca para pintar o azulejo do banheiro
com nanquim. É tão óbvio que ela sempre se arrepende. Ela estava ansiosa e pintou o banheiro com
tinta preta. Insultando-o. Com palavras chulas e melodramas baratos. Ele ri. Ela
se ilude como se fosse grande coisa ter uma ataque histérico e denomina sua própria
loucura de este-jeito-almodóvar-de-amar. Ele volta duas horas e meia depois.
Ela ainda está ali, agora com uísque acompanhando os cigarros. Senta ao seu
lado. Meu deus, até o gato está sujo de tinta. Passa a mão em suas pernas e ela
se irrita. Ela deita, abraça. E ri. Ri louca. Ele diz em seu ouvido
Sua vagabunda eu nunca te amei.
Os dois gargalham e colocam
Caetano pra tocar.