terça-feira, 13 de novembro de 2012

sua vagabunda eu nunca te amei


Parede cinza.  Aconchegante. Vinis colados na parede, estante de livros organizada por gênero literário. Os de cinema ganharam uma estante exclusiva, organizada por ordem alfabética. Ela fumava no sofá vermelho com os pés na mesa de madeira. Fumava e ouvia uma música que não existe. Os cigarros eram fortes demais, mas ela se esforçava para não tossir. Seu vestido preto representaria viuvez se não caísse tão sensualmente em suas pernas brancas, seus pés, unhas com esmalte vermelho, estão trêmulos. Trêmulos como suas mãos, de unhas roídas, que sustentam quase que involuntariamente um cigarro. A fumaça tóxica não parece incomodar o gato que, em sua desproporcionalidade corporal, dorme ao seu lado e recebe seus carinhos. Ele entra, com tênis sujo e uma calça jeans que ela odiava. Os olhos dele se arregalaram, os dela se molham. Porque ele fica tão bonito em duas situações:
. quando sorri
. quando arregala os olhos
Ele vira as costas e vai embora. Ela chora e abraça forte o gato, que agora sim se incomoda e vai dormir na janela. A janela que tem violetas e margaridas em vasos que ela mesma decorou com tinta acrílica. A cortina tem laços azuis que torna tudo fofo. E isso releva como ela é, doce e delicada. Mas suficientemente louca para pintar o azulejo do banheiro com nanquim. É tão óbvio que ela sempre se arrepende.  Ela estava ansiosa e pintou o banheiro com tinta preta. Insultando-o. Com palavras chulas e melodramas baratos. Ele ri. Ela se ilude como se fosse grande coisa ter uma ataque histérico e denomina sua própria loucura de este-jeito-almodóvar-de-amar. Ele volta duas horas e meia depois. Ela ainda está ali, agora com uísque acompanhando os cigarros. Senta ao seu lado. Meu deus, até o gato está sujo de tinta. Passa a mão em suas pernas e ela se irrita. Ela deita, abraça. E ri. Ri louca. Ele diz em seu ouvido

Sua vagabunda eu nunca te amei.

Os dois gargalham e colocam Caetano pra tocar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

SÃO PAULO

Verdade, por uma verdade. Gustavo não entende mais nada da vida. Agora só pensa em descobrir alguma verdade. Tenta inutilmente compreender teorias de Física, mas não tem paciência para partículas suspensas no espaço.

Leandra se perdeu no tempo. Só sabe os dias da semana por causa da embalagem de sua pílula anticoncepcional. Todos os dias, onze e meia, descobre em qual dia da semana está. Por alguma razão mística não esquece de tomar a pílula, talvez porque ela ritualizou o tempo, ritualizou seu anti-amor.

Juanito ganha a vida vendendo aquários sob medida. É o novo fetiche dos Jardins. Quanto maior o aquário, mais exóticos os peixes. Juanito queria ser jogador de futebol. 

José Carlos joga Poker online, e se arrepende. Zé Carlos se sente culpado por coisas tão pequenas e não vê que desperdiça a vida. Deveria convidar Mateus, seu colega de trabalho, para ir ao cinema. Mas prefere o submundo da internet de madrugada.

Antônia se mudou para Salvador. Achou a cidade uma merda e volta pra São Paulo no fim do mês. Vai reatar com seu ex namorado, Ricardo. Tenta se convencer que é  só pra não perder a bela vista que ela tinha ao lado da Estação da Luz. Antônia ama Ricardo, pena que ele não gosta de lavar a louça. 

Guilherme é um quarentão que broxa desde os vinte. Tem uma arrogância de desesperado e não se encaixa em normas sociais. Mas vai toda quarta e todo domingo se embriagar na Avenida Angélica para se sentir jovem. Como se houvesse salvação na juventude. No fundo se sente um fracassado e disfarça sua frustração com machismo e futebol.



André quer ser artista. Mas não tem talento. Talvez tenha, mas a preguiça o domina. Gosta de plagiar as ideias de sua ex namorada, Júlia. Uma menina sem sal, mas com uma arte colorida e cheia de amor. André namora Marcela só pelo dinheiro e por todos os contatos profissionais que ela tem a oferecer. André usa LSD e fuma maconha pra se sentir subversivo. Mas não passa de mais um pseudo-artista da Vila Madalena. Júlia ainda está apaixonada por ele. Mas os dois escolhem a arte. 

domingo, 28 de outubro de 2012

comece a escrever sobre os seus medos

ninguém está seguro por se manter aparentemente firme em meia dúzia de convicções. tudo que ensinam na Faculdade foi pré-selecionado. por mais glorioso que pareça, tem a finalidade de compra ou venda. de lucro, feito pra ser bonito no mercado. os discursos feitos por meia dúzia de barbudos meio intelectuais, meios de esquerda... são só discursos. são só palavras. e eu não consigo me adaptar num lugar onde as citações valem mais que a opinião de quem está ali. seja a realidade uma ilusão de sentidos confusos, seja o tempo uma ilusão de ideias transbordando pelo espaço, seja o tempo histórico algo para eu me apoiar na minha argumentação. vivemos algo hoje, um momento que dura um mês ou completa aniversário de um ano. vivemos um tempo e nele há certos aspectos comuns e facilmente identificáveis a todos. sem querer ser prática. afinal, eu não sou uma pessoa prática. se eu fosse não teria três blogs pra escrever sobre os meus medos. eu também não quero descartar ideias. nem toda ideia velha é caduca. mas eu nego. não quero engolir seus manifestos, tuas dores vermelhas, teus discursos metódicos, monótonos, repetitivos. nem me classificar inutilmente, como se só houvesse dois caminhos para escolher, esquerda ou direita. estou cansada das lamúrias de burguês dos militantes que pouco ou nada se importam, de fato, com o peso diário que é suportar esses dias amargos, cheios de doces para disfarçar o tédio.