Entrou no táxi. Chovia. Ela toda
molhada. Falou o endereço, o taxista falava do quanto odiava a chuva, que tinha
medo de enchente, medo de morrer junto com o passageiro... afogados! E virar
manchete de jornal sensacionalista das seis da tarde. Reclamava do passageiro
anterior que insistia em passar pelo túnel do Anhangabaú alagado. Ela, irritada,
não queria conversar. Apenas concordava. Ele ouvia uma rádio qualquer, as
piores músicas de todos os tempos desse verão. Não suportava essas músicas,
talvez por elitismo cultural que a fazia ouvir MPB e Jazz, apenas. Mas talvez
os sertanejos, pagodes e axés eram irritantes mesmo. As ruas alagavam
rapidamente, o taxímetro aumentava no mesmo ritmo. Mas ela não se importa. Segundo
os conselhos que ouviu minutos antes, não devia se mexer muito, tampouco se estressar.
Não estava num ônibus, ao menos, mas estava num táxi e o taxista, com aquele
bigode estranho e loiro, aqueles olhinhos verdes e irritantes, falava sem
parar. O Ibirapuera passava por seus olhos castanho-médios, quase molhados e
doces como a chuva, em luzes impressionistas através da janela daquele carro,
como tantos outros carros brancos, que transportam pessoas aleatórias em troca
de dinheiro, que estavam num congestionamento sem fim em uma tarde de março em
São Paulo. Ela, no banco traseiro, transpirava e respirava fundo, desconexa,
irritada. Até que falou de súbito EU ESTOU GRÁVIDA! O pobre motorista que
conduzia aquele veículo freou assustado, mais pela inesperada e desesperada informação
– que o foi dada quase aos gritos - do que por seu conteúdo. Falou, gaguejando,
quantas semanas? Por isso está no hospital? É menino? Contou sobre seu filho de
quatro anos, coisa linda, que é casado e mora no Carrão. Ela, já ria e disse umas sete mais ou menos, séria
e quase cômica. Você, além do médico, é o primeiro a saber disso. Ele,
lisonjeado, desligou o rádio porque sentiu que era sério. Ela, aliviada, até
sorriu e disse, me sinto feliz por você ser o primeiro a saber. Ele ficou
calado, a espera do possível desabafo, que em poucos anos de profissão sabia
quando acontecia, e estava num momento desses, e era o que ele mais gostava da profissão,
a corrida-desabafo, quando alguém entregava o que era mais íntimo. Estava há
pouco tempo no ponto do hospital, já ouviu sobre doença grave, parente que
morreu, herdeiros brigando por herança, mas uma mulher grávida, nunca. Em uma
cidade como essa, as pessoas carregam muitos segredos guardados com o guarda-chuva.
Ele sempre aguardava esse momento de confissão íntima. Ela, sem entender, achou
melhor falar, vai que ele liga o rádio outra vez. Começou com
tenho-vinte-e-cinco-anos. Estou com meu namorado há uns cinco, ou melhor,
sete... ele nem desconfia dessa gravidez, eu acho. Era o que sempre temíamos,
vai ser um choque mas vai ser bom. Vamos nos mudar para um apartamento maior
agora, acho e talvez teremos um cachorro. O taxista, deslumbrado, apesar das buzinas
incessantes, sorria e olhava praquela moça meio pálida, de vestido, com cabelos
molhados, ela chorava e ele também, quase. Perguntou o nome do bebê e ela
incrédula do que estava acontecendo, respondeu: Augusta... ou talvez Maria
Antônia... se for um menino... João, Bento...