domingo, 10 de março de 2013

bandeira dois


Entrou no táxi. Chovia. Ela toda molhada. Falou o endereço, o taxista falava do quanto odiava a chuva, que tinha medo de enchente, medo de morrer junto com o passageiro... afogados! E virar manchete de jornal sensacionalista das seis da tarde. Reclamava do passageiro anterior que insistia em passar pelo túnel do Anhangabaú alagado. Ela, irritada, não queria conversar. Apenas concordava. Ele ouvia uma rádio qualquer, as piores músicas de todos os tempos desse verão. Não suportava essas músicas, talvez por elitismo cultural que a fazia ouvir MPB e Jazz, apenas. Mas talvez os sertanejos, pagodes e axés eram irritantes mesmo. As ruas alagavam rapidamente, o taxímetro aumentava no mesmo ritmo. Mas ela não se importa. Segundo os conselhos que ouviu minutos antes, não devia se mexer muito, tampouco se estressar. Não estava num ônibus, ao menos, mas estava num táxi e o taxista, com aquele bigode estranho e loiro, aqueles olhinhos verdes e irritantes, falava sem parar. O Ibirapuera passava por seus olhos castanho-médios, quase molhados e doces como a chuva, em luzes impressionistas através da janela daquele carro, como tantos outros carros brancos, que transportam pessoas aleatórias em troca de dinheiro, que estavam num congestionamento sem fim em uma tarde de março em São Paulo. Ela, no banco traseiro, transpirava e respirava fundo, desconexa, irritada. Até que falou de súbito EU ESTOU GRÁVIDA! O pobre motorista que conduzia aquele veículo freou assustado, mais pela inesperada e desesperada informação – que o foi dada quase aos gritos - do que por seu conteúdo. Falou, gaguejando, quantas semanas? Por isso está no hospital? É menino? Contou sobre seu filho de quatro anos, coisa linda, que é casado e mora no Carrão.  Ela, já ria e disse umas sete mais ou menos, séria e quase cômica. Você, além do médico, é o primeiro a saber disso. Ele, lisonjeado, desligou o rádio porque sentiu que era sério. Ela, aliviada, até sorriu e disse, me sinto feliz por você ser o primeiro a saber. Ele ficou calado, a espera do possível desabafo, que em poucos anos de profissão sabia quando acontecia, e estava num momento desses, e era o que ele mais gostava da profissão, a corrida-desabafo, quando alguém entregava o que era mais íntimo. Estava há pouco tempo no ponto do hospital, já ouviu sobre doença grave, parente que morreu, herdeiros brigando por herança, mas uma mulher grávida, nunca. Em uma cidade como essa, as pessoas carregam muitos segredos guardados com o guarda-chuva. Ele sempre aguardava esse momento de confissão íntima. Ela, sem entender, achou melhor falar, vai que ele liga o rádio outra vez. Começou com tenho-vinte-e-cinco-anos. Estou com meu namorado há uns cinco, ou melhor, sete... ele nem desconfia dessa gravidez, eu acho. Era o que sempre temíamos, vai ser um choque mas vai ser bom. Vamos nos mudar para um apartamento maior agora, acho e talvez teremos um cachorro. O taxista, deslumbrado, apesar das buzinas incessantes, sorria e olhava praquela moça meio pálida, de vestido, com cabelos molhados, ela chorava e ele também, quase. Perguntou o nome do bebê e ela incrédula do que estava acontecendo, respondeu: Augusta... ou talvez Maria Antônia... se for um menino... João, Bento... 

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